quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Bonjour, vieillesse!

.... parafraseando Bonjour tristesse,  titulo de um  romance de Françoise Sagan que já mereceu algumas versões para o cinema.

*********** 

2025 foi o ano em que fui apresentado à velhice. Suas dores típicas, alvo das queixas de outros contemporâneos, passaram a ser minhas também. Apossaram-se de partes do meu corpo, tolheram a liberdade de meus movimentos, tornaram-se parte da rotina.  Posso dizer - finalmente (?) -  sou um velho. 

A memória  rateava, mas nada além do que relatavam os colegas. Fisicamente orgulhava-me das longas caminhadas que sinalizavam minha resiliência física, mesmo com um prontuário recheado de intercorrências médicas. Fui forçado a reduzi-las, diante das persistentes dores no ombro e no quadril esquerdo, o lado mais afetado pelo acidente de 40 anos atrás e provavelmente  a causa maior  da malaise.  - Aqui se faz, aqui se paga... é aforismo certeiro para o tratamento que damos ao corpo em nossas vidas. 

Estou de molho, observando o comportamento da dor. Consulto médicos, aguardo resultados de  exames, tentando identificar os problemas. Certamente, não me livrarei das dores. Aceito-as estoicamente, fazem parte da quadra da vida em que me encontro. Oxalá os deuses, de mim se apiedem e permitam que eu continue com minhas caminhadas. Além dos livros, são a alegria que me resta. Fazem bem à minha alma.

************

Realizações? Fiquei abaixo das expectativas. Não consegui concluir as obras de um apartamento que comprei no final do ano que passou. 

************

Projetos? Pesa sobre mim aquele do Caminho de Santiago. Não me canso de adiá-lo, assistindo ao mesmo tempo, o espectro das limitações físicas crescendo. 

Gostaria de conhecer pelo menos o nosso país. Comprar uma pick-up 4x4 e sair por aí sem lenço e sem documento.  Será que conseguirei? 

************

Mais um ano gregoriano e mais presente a sensação de finitude. A distância que me separa do fim - outra vida? o retorno ao nada? - diminue, e diminue, e diminue... 

A solidão não é para os fracos (II)

Schopenhauer pode não ter sido um grande filósofo mas certamente é um filósofo indigesto. Concebeu o ser humano como um ser submetido ao grilhão de uma vontade irracional, insconsciente e  insaciável. Satisfeito um desejo, sobrevém o tédio e a compulsão por um novo. A insatisfação é permanente;  o sofrimento torna-se componente inseparável da existência. 

(Sim, estou simplificando; duas ou três frases não abarcam sua filosofia,  mas são o bastante para o tema da postagem) 

Indigesto, não? Ainda mais em tempos de felicidade instagramável, expressa nos rostinhos sorridentes e corpos perfeitos dos perfis pessoais das redes sociais. Notabilizado por seus comentários mordazes, imagino o que Schopenhauer escreveria a respeito do nosso espírito do tempo.

**********

Entretanto, ele foi  generoso com a solidão e os solitários. Apesar das fontes não serem livros do autor ou sobre sua obra/filosofia, ele invariavelmente é citado quando aborda-se o  tema:

A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais.

............... 

Quem não ama a solidão, não ama a liberdade.

................ 

A solidão concede ao homem intelectualmente superior uma vantagem dupla: primeiro, a de estar só consigo mesmo; segundo, a de não estar com os outros. Esta última será altamente apreciada se pensarmos em quanta coerção, quanto dano e até mesmo quanto perigo toda a convivência social traz consigo.
*********** 

Não é lisonjeiro para quem é tão mal avaliado socialmente?


segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

A solidão não é para os fracos.

As festas do final de ano caracterizadas como uma celebração do encontro entre familiares, colegas de trabalho,  amigos, pessoas próximas...sempre trazem à baila a questão da solidão e das pessoas que tocam o barco da vida como barqueiros-só. Nestes dias, sentem-se como ilhas, rodeadas por festas de confraternização por todos os lados. Para a grande maioria, haja  constrangimento, inadequação, desconforto, e até mal-estar a depender da história de cada um.

A situação certamente motivou a coluna de Eduardo Affonso  para o Globo de 27.12 dedicada à solidão e recheada de frases retiradas de canções da nossa música popular sobre ela. Com alegria descobri no cronista um coleguinha na condição - definiu-se como um solitário crônico. Não sei o que ele quer dizer com crônico mas espero que seja a de um solitário de fato e de direito: vive e mora só. Há os solitários de butique e uma legião que não se reconhece na condição, embora tenha uma vida social intensa, ou divida o mesmo teto com companheiro ou companheira. 

Chamou minha atenção a frase: - Há a crença de que as pessoas solitárias fracassaram; ninguém as quis. Eu acrescentaria: -... foram incompetentes. Não conseguiram arrumar ninguém. É o que elabora o imaginário social; o solitário é considerado um pária. Do alto dos meus 74 anos, penso que teria sido melhor ter embarcado em alguma das situações que a vida me ofereceu - uma, qualquer uma! como reza a canção - a ter que conviver com esse estigma. Quanto à solidão, não me incomoda, tampouco a temo. O desconforto vem de fora, não parte do meu interior. 

(voltando à nossa música popular...)

-  Lamento Dolores, mas a solidão não acabou comigo.


"Gauderiando"

... e como se não bastasse, com chapéu de beijar santo em parede!




 

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Roteiro de uma vida

 Vivi fora da tribo
à margem das manadas,
e conheci o repúdio dos chefes.

O verso ´é de Cristina Peri Rossi, poeta uruguaia que exilou-se em Barcelona desde 1972. Pesquei a pérola na coluna de Ruth de Aquino em o Globo de hoje. A julgar pelo prontuário da moça, tenho pouco em comum com ela a não ser exatamente o conteúdo desses versos. 

Pensando bem... não é tão pouco assim.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Feliz Natal! (II)

 


Feliz Natal!

Natal é a minha festa predileta. Contraditório para um antissocial-raiz,  pois é tida e havida como a festa da família, dos encontros. Há mil motivos... espirituais, mundanos...nada, porém que se compare ao ver o brilho nos olhos de uma criança diante da féerie de luzes, cores e canções para a época, dos presentes, e vá lá... do Papai Noel. O mundo fica em ebulição.

Quieto, no meu cantinho,  maravilho-me cada vez mais com os oratórios de Natal do eterno Johann Sebastian que ouço em rádios geridas pelo poder público, visito os presépios nas igrejas da cidade, e - rito consagrado - ocupo-me da montagem da  árvore de natal e do presépio caseiro. Entretanto, não serão eles que mostrarei. O quadro de pintor neerlandês Geertgen tot Sint Jans de 1490 é de uma riqueza maior. Reparem no jogo de luz e sombra que já prenunciava a escola flamenga barroca.