........
Sem a ajuda da bebida vemos uns aos outros como somos, e nenhuma sociedade humana pode ser construida sobre uma base tão frágil. O mundo é acossado por ilusões destrutivas, e a história recente tornou-nos cautelosos em relação a ponto de nos esquecermos que uma ilusão pode ser benéfica. Onde estaríamos sem a crença de que os seres humanos podem superar uma catástrofe e jurar amor eterno? Mas essa crença persiste apenas se renovada com a imaginação. Como é possível que isso ocorra se não temos uma rota de fuga dos fatos? Assim, a necessidade de agentes tóxicos está profundamente entranhada em nós, e todas as tentativas de proibir nossos hábitos estão fadadas ao fracasso. A verdadeira questão, creio eu, não é usar ou não usar os agentes tóxicos, em sim qual deles usar. E - embora todos eles disfarcem as coisas - alguns (sobretudo o vinho) também nos ajudam a enfrentá-las, apresentando-as de forma reimaginada e idealizada.
..........
É contra a falsa santidade e a prudência covarde que se dirige grande parte da minha discussão, não a fim de incentivar o vício, mas para mostrar que o vinho é compatível com a Virtude. O modo certo de viver é desfrutando as nossas faculdades, lutando para gostar dos nossos próximos e se possível amá-los, e aceitar que a morte é necessária em si mesma e também um alívio abençoado para aqueles a quem de outra forma iríamos sobrecarregar. Em minha opinião, os fanáticos pela saúde, que tem envenenado todos os nossos prazeres naturais, devem ser reunidos e trancafiados juntos num lugar onde possam se entediar mutuamente, empanturrando-se com suas inúteis panacéias para a vida eterna.
...........
O vinho, bebido na ocasião certa, no lugar certo e na companhia certa, é o caminho para a meditação e o arauto da paz.
Scruton, R., bebo, logo existo, Octavo, 2011. (Prelúdio)
Nenhum comentário:
Postar um comentário