quarta-feira, 26 de março de 2025

Milonga del solitario

Soy como el lión de las sierras,
Vivo y muero en soledad.

Atahualpa Yupanqui (1908/1992)


 

segunda-feira, 24 de março de 2025

Ah, este país...

Em  04 de março, foi a vez de Affonso Romano de Sant'anna partir. Mais um.

Seus versos discorriam sobre o quotidiano refletindo as perplexidades e agruras do país,  em especial, na segunda metade do século XX marcada pela ditadura militar . Seu poema - Que país é este? -  é um retrato daqueles tempos, considerado sua grande obra. 

  

QUE PAÍS É ESTE?

para Raymundo Faoro

Puedo decir que nos han traicionado? No. Que

todos fueran buenos? Tampoco. Pero alli está

 una buena voluntad, sin duda y sobretodo, el ser así.

   CÉSAR VALLEJO

1

   Uma coisa é um país,

   outra um ajuntamento.

    Uma coisa é um país,

   outra um regimento.

    Uma coisa é um país,

   outra o confinamento.

 

Mas já soube datas, guerras, estátuas

usei caderno "Avante"

  – e desfilei de tênis para o ditador.

Vinha de um "berço esplêndido" para um "futuro radioso"

e éramos maiores em tudo

 – discursando rios e pretensão.

 

   Uma coisa é um país,

   outra um fingimento.

    Uma coisa é um país,

   outra um monumento.

    Uma coisa é um país,

   outra o aviltamento.

 

Deveria derribar aflitos mapas sobre a praça

em busca da especiosa raiz? ou deveria

parar de ler jornais

  e ler anais

como anal

     animal

  hiena patética

  na merda nacional?

 

Ou deveria, enfim, jejuar na Torre do Tombo

comendo o que as traças descomem

    procurando

o Quinto Império, o primeiro portulano, a viciosa visão do paraíso

que nos impeliu a errar aqui?

 

   Subo, de joelhos, as escadas dos arquivos

   nacionais, como qualquer santo barroco

  a rebuscar

   no mofo dos papiros, no bolor

   das pias batismais, no bodum das vestes reais

   a ver o que se salvou com o tempo

   e ao mesmo tempo

 – nos trai.

 

2

Há 500 anos caçamos índios e operários,

há 500 anos queimamos árvores e hereges,

há 500 anos estupramos livros e mulheres,

há 500 anos sugamos negras e aluguéis.

 

Há 500 anos dizemos:

   que o futuro a Deus pertence,

   que Deus nasceu na Bahia,

   que São Jorge é que é guerreiro,

   que do amanhã ninguém sabe,

   que conosco ninguém pode,

   que quem não pode sacode.

 

Há 500 anos somos pretos de alma branca,

   não somos nada violentos,

   quem espera sempre alcança

   e quem não chora não mama

   ou quem tem padrinho vivo

   não morre nunca pagão.

 

Há 500 anos propalamos:

   este é o país do futuro,

   antes tarde do que nunca,

   mais vale quem Deus ajuda

   e a Europa ainda se curva.

 

Há 500 anos

   somos raposas verdes

   colhendo uvas com os olhos,

    semeamos promessa e vento

   com tempestades na boca,

    sonhamos a paz da Suécia

   com suíças militares,

    vendemos siris na estrada

   e papagaios em Haia,

    senzalamos casas-grandes

   e sobradamos mocambos,

    bebemos cachaça e brahma

   joaquim silvério e derrama,

    a polícia nos dispersa

   e o futebol nos conclama,

    cantamos salve-rainhas

   e salve-se quem puder,

    pois Jesus Cristo nos mata

   num carnaval de mulatas.

 

Este é um país de síndicos em geral,

este é um país de cínicos em geral,

este é um país de civis e generais.

 

   Este é o país do descontínuo

   onde nada congemina,

     e somos índios perdidos

   na eletrônica oficina.

 

    Nada nada congemina:

    a mão leve do político

    com nossa dura rotina,

      o salário que nos come

    e nossa sede canina,

     a esperança que emparedam

    e a nossa fé em ruína,

     nada nada congemina:

    a placidez desses santos

    e nossa dor peregrina,

 

     e nesse mundo às avessas

    – a cor da noite é obsclara

    e a claridez vespertina.

 

3

Sei que há outras pátrias. Mas

mato o touro nesta Espanha,

planto o lodo neste Nilo,

caço o almoço nesta Zâmbia,

me batizo neste Ganges,

vivo eterno em meu Nepal.

 

    Esta é a rua em que brinquei,

   a bola de meia que chutei,

   a cabra-cega que encontrei,

   o passa-anel que repassei,

   a carniça que pulei.

 

Este é o país que pude

que me deram

e ao que me dei,

e é possível que por ele, imerecido,

  – ainda me morrerei.

 

 4

Minha geração se fez de terços e rosários:

  – um terço se exilou

 – um terço se fuzilou

 – um terço desesperou

 

 nessa missa enganosa

 – houve sangue e desamor. Por isto,

canto-o-chão mais áspero e cato-me

    ao nível da emoção.

 

Caí de quatro

           animal

     sem compaixão.

 

 Uma coisa é um país,

outra uma cicatriz.

 Uma coisa é um país,

outra a abatida cerviz.

 Uma coisa é um país,

outra esses duros perfis.

 

Deveria eu catar os que sobraram,

os que se arrependeram,

os que sobreviveram em suas tocas

e num seminário de erradios ratos

 suplicar:

 – expliquem-me a mim

   e ao meu país?

 

Vivo no século vinte, sigo para o vinte e um

ainda preso ao dezenove

 como um tonto guarani

 e aldeado vacum. Sei que daqui a pouco

 não haverá mais país.

 

País:

 loucura de quantos generais a cavalo

 escalpelando índios nos murais,

 queimando caravelas e livros

    – nas fogueiras e cais,

 homens gordos melosos sorrisos comensais

 politicando subúrbios e arando votos

 e benesses nos palanques oficiais.

 

Leio, releio os exegetas.

Quanto mais leio, descreio. Insisto?

Deve ser um mal do século.

– se não for um mal de vista.

 

Já pensei: – é erro meu. Não nasci no tempo certo.

 Em vez de um poeta crente

 sou um profeta ateu.

 Em vez da epopéia nobre,

 os de meu tempo me legam

 como tema

 – a farsa

 e o amargo riso plebeu.

 

5

Mas sigo o meu trilho. Falo o que sinto

e sinto muito o que falo

 – pois morro sempre que calo.

Minha geração se fez de lições mal-aprendidas

 – e classes despreparadas.

Olhávamos ávidos o calendário. Éramos jovens.

Tínhamos a "história" ao nosso lado. Muitos

maduravam um rubro outubro

   outros iam ardendo um torpe agosto.

Mas nem sempre ao verde abril

 se segue a flor de maio.

Às vezes se segue o fosso

 – e o roer do magro osso.

E o que era a revolução outrora

agora passa à convulsão inglória.

E enquanto ardíamos a derrota como escória

e os vencedores nos palácios espocavam seus champanhas

 sobre a aurora

o reprovado aluno aprendia

  com quantos paus se faz a derrisória estória.

Convertidos em alvo e presa da real caçada

abriu-se embandeirado

  um festival de caça aos pombos

  – enquanto raiava sangüínea e fresca a madrugada.

 

 Os mais afoitos e desesperados

em vez de regressarem como eu

   sobre os covardes passos,

e em vez de abrirem suas tendas para a fome dos desertos,

seguiram no horizonte uma miragem

     e logo da luta

    passaram

ao luto.

 

Vi-os lubrificando suas armas

  e os vi tombados pelas ruas e grutas.

Vi-os arrebatando louros e mulheres

  e serem sepultados às ocultas.

Vi-os pisando o palco da tropical tragédia

  e por mais que os advertisse do inevitável final

  não pude lhes poupar o sangue e o ritual.

 

  Hoje

os que sobraram vivem em escuras

e européias alamedas, em subterrâneos

de saudade, aspirando a um chão-de-estrelas,

plangendo um violão com seu violado desejo

a colher flores em suecos cemitérios.

Talvez

  todo o país seja apenas um ajuntamento

  e o conseqüente aviltamento

    – e uma insolvente cicatriz.

    Mas este é o que me deram,

   e este é o que eu lamento,

   e é neste que espero

   – livrar-me do meu tormento.

 

 Meu problema, parece, é mesmo de princípio:

– do prazer e da realidade

  – que eu pensava

com o tempo resolver

 – mas só agrava com a idade.

 

Há quem se ajuste

engolindo seu fel com mel.

Eu escrevo o desajuste

vomitando no papel.

 

 6

Mas este é um povo bom

   me pedem que repita

   como um monge cenobita

   enquanto me dão porrada

   e me vigiam a escrita.

 

Sim. Este é um povo bom. Mas isto também diziam

os faraós

  enquanto amassavam o barro da carne escrava.

Isso digo toda noite

 enquanto me assaltam a casa,

isso digo

    aos montes em desalento

enquanto recolho meu sermão ao vento.

 

 Povo. Como cicatrizar nas faces sua imagem perversa e una?

Desconfio muito do povo. O povo, com razão,

– desconfia muito de mim.

 

Estivemos juntos na praça, na trapaça e na desgraça,

mas ele não me entende

  – nem eu posso convertê-lo.

A menos que suba estádios, antenas, montanhas

e com três mentiras eternas

 o seduza para além da ordem moral.

 

Quando cruzamos pelas ruas

não vejo nenhum carinho ou especial predileção nos seus olhos.

Há antes incômoda suspeita. Agarro documentos, embrulhos, família

a prevenir mal-entendidos sangrentos.

 

 Daí, já vejo as manchetes:

  – o poeta que matou o povo

  – o povo que só/çobrou ao poeta

  – (ou o poeta apesar do povo?)

 

– Eles não vão te perdoar

 – me adverte o exegeta.

Mas como um país não é a soma de rios, leis, nomes de ruas, questionários

   [e geladeiras,

e a cidade do interior não é apenas gás neon, quermesse e fonte luminosa,

uma mulher também não é só capa de revista, bundas e peitos fingindo que

[é coisa nossa.

 

 Povo

também são os falsários

e não apenas os operários,

povo

também são os sifilíticos

 não só atletas e políticos,

povo

são as bichas, putas e artistas

  e não só escoteiros

  e heróis de falsas lutas,

são as costureiras e dondocas

  e os carcereiros

e os que estão nos eitos e docas.

Assim como uma religião não se faz só de missas na matriz,

mas de mártires e esmolas, muito sangue e cicatriz,

a escravidão

  para resgatar os ferros de seus ombros

requer

poetas negros que refaçam seus palmares e quilombos.

 

 Um país não pode ser só a soma

de censuras redondas e quilômetros

quadrados de aventura, e o povo

 

 não é nada novo

    – é um ovo

 que ora gera e degenera

 que pode ser coisa viva

    – ou ave torta

depende de quem o põe

  – ou quem o gala.

 

 7

Percebo

  que não sou um poeta brasileiro. Sequer

  um poeta mineiro. Não há fazendas, morros,

  casas velhas, barroquismos nos meus versos.

 

 Embora meu pai viesse de Ouro Preto com bandas de música polícia militar casos

[de assombração e uma alma milenar,

embora minha mãe fosse imigrando hortaliças protestantes tecendo filhos nas

[fábricas e amassando a fé e o pão,

olho Minas com um amor distante,

como se eu, e não minha mulher

 – fosse um poeta etíope.

 

Fácil não era apenas ao tempo das arcádias

entre cupidos e sanfoninhas,

fácil também era ao tempo dos partidos:

 – o poeta sabia "história"

 vivia em sua "célula",

  o povo era seu hobby e profissão,

  o povo era seu cristo e salvação.

 

O povo, no entanto, não é o cão

e o patrão

– o lobo. Ambos são povo.

E o povo sendo ambíguo

é o seu próprio cão e lobo.

 

Uma coisa é o povo, outra a fome.

Se chamais povo à malta de famintos,

se chamais povo à marcha regular das armas,

se chamais povo aos urros e silvos no esporte popular

 

então mais amo uma manada de búfalos em Marajó

e diferença já não há

entre as formigas que devastam minha horta

e as hordas de gafanhoto de 1948

 – que em carnaval de fome

o próprio povo celebrou.

 

 Povo

   não pode ser sempre o coletivo de fome.

Povo

   não pode ser um séquito sem nome.

Povo

   não pode ser o diminutivo de homem.

 

O povo, aliás,

 deve estar cansado desse nome,

embora seu instinto o leve à agressão

 e embora

o aumentativo de fome

 possa ser

 revolução.


 *******, 

... mas eu sou fã mesmo é da  Implosão da Mentira que lí - se a memória não me falha -  nos bons tempos do Caderno B do Jornal do Brasil. Ambos estão  em linha  com meu post anterior em Afinal, onde foi que nos f...? Os anos se passaram mas o desencanto e a perplexidade continuam.

 

Mentiram-me.
Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente.
Mentem de corpo e alma completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.

Mentem sobretudo impunemente.
Não mentem tristes,
alegremente mentem.
Mentem tão nacionalmente
que acho que mentindo história a fora
vão enganar a morte eternamente.

Mentem, mentem e calam
mas nas frases falam e desfilam de tal modo nuas
que mesmo o cego pode ver a verdade em trapos pelas ruas.
Sei que a verdade é difícil e para alguns é cara e escura,
mas não se chega à verdade pela mentira
nem à democracia pela ditadura.

Evidentemente crer que uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo permanentemente.

Mentem, mentem caricaturalmente,
mentem como a careca mente ao pente,
mentem como a dentadura mente ao dente
mentem como a carroça à besta em frente,
mentem como a doença ao doente,
mentem como o espelho transparente
mentem deslavadamente como nenhuma lavadeira mente ao ver a nódoa sobre o
rio
mentem com a cara limpa e na mão o sangue quente,
mentem ardentemente como doente nos seus instantes de febre,
mentem fabulosamente como o caçador que quer passar gato por lebre
e nessa pilha de mentiras a caça é que caça o caçador
e assim cada qual mente indubitavelmente.

Mentem partidariamente,
mentem incrivelmente,
mentem tropicalmente,
mentem hereditariamente,
mentem, mentem e de tanto mentir tão bravamente
constroem um país de mentiras diariamente.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

Disse tudo (VI)

 

Esse é o paradoxo do identitarismo, embora tenha surgido como um movimento para tratar da diferença, ele mesmo não consegue lidar com o diferente

Rodrigo Toniol 

em defesa da psicanalista Maria Rita Kehl, linchada virtualmente depois de ter criticado o movimento identitário por ela classificado como um nicho narcísico. Cirúrgica, disse tudo em duas palavras.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Disse tudo (V)

 

O Rio é essa cidade em que tudo parece possível, e nada se realiza.

Carlos Heitor Cony 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

A miséria da justiça brasileira.

Instado pelo STF a explicar o aumento de R$2000,00 para R$10000,00 do valor do vale-alimentação aos funcionários do TJ-MT em dezembro passado, jocosamente apelidado de vale-peru,   seu presidente na manifestação enviada ao Supremo, lá pelas tantas saiu-se com essa pérola:

Tal benefício não deve se limitar a um mero caráter formal, mas sim assegurar a cobertura das necessidades nutricionais diárias da pessoa humana, com dignidade, equilíbrio e em conformidade com as boas práticas alimentares.

Jurisdiquês + cara de pau dá nisso aí. É por essa e outras muito mais graves, que nosso Índice de Confiança na Justiça elaborado pela Fundação Getúlio Vargas, alcança meros 34%. 

Desembargador José Zuquim Nogueira, vá se catar!