Sic Transit Gloria Mundi
A saga de um homem só.
quarta-feira, 26 de março de 2025
Milonga del solitario
segunda-feira, 24 de março de 2025
Ah, este país...
Em 04 de março, foi a vez de Affonso Romano de Sant'anna partir. Mais um.
Seus versos discorriam sobre o quotidiano refletindo as perplexidades e agruras do país, em especial, na segunda metade do século XX marcada pela ditadura militar . Seu poema - Que país é este? - é um retrato daqueles tempos, considerado sua grande obra.
QUE PAÍS É ESTE?
para Raymundo Faoro
Puedo decir que nos han traicionado? No. Que
todos fueran buenos? Tampoco. Pero alli está
una buena
voluntad, sin duda y sobretodo, el ser así.
CÉSAR VALLEJO
1
Uma coisa é um
país,
outra um
ajuntamento.
outra um
regimento.
outra o
confinamento.
Mas já soube datas, guerras, estátuas
usei caderno "Avante"
– e desfilei de
tênis para o ditador.
Vinha de um "berço esplêndido" para um
"futuro radioso"
e éramos maiores em tudo
– discursando rios
e pretensão.
Uma coisa é um
país,
outra um
fingimento.
outra um
monumento.
outra o
aviltamento.
Deveria derribar aflitos mapas sobre a praça
em busca da especiosa raiz? ou deveria
parar de ler jornais
e ler anais
como anal
animal
hiena patética
na merda
nacional?
Ou deveria, enfim, jejuar na Torre do Tombo
comendo o que as traças descomem
procurando
o Quinto Império, o primeiro portulano, a viciosa visão
do paraíso
que nos impeliu a errar aqui?
Subo, de
joelhos, as escadas dos arquivos
nacionais, como
qualquer santo barroco
a rebuscar
no mofo dos
papiros, no bolor
das pias
batismais, no bodum das vestes reais
a ver o que se
salvou com o tempo
e ao mesmo tempo
– nos trai.
2
Há 500 anos caçamos índios e operários,
há 500 anos queimamos árvores e hereges,
há 500 anos estupramos livros e mulheres,
há 500 anos sugamos negras e aluguéis.
Há 500 anos dizemos:
que o futuro a
Deus pertence,
que Deus nasceu
na Bahia,
que São Jorge é
que é guerreiro,
que do amanhã
ninguém sabe,
que conosco
ninguém pode,
que quem não
pode sacode.
Há 500 anos somos pretos de alma branca,
não somos nada
violentos,
quem espera
sempre alcança
e quem não chora
não mama
ou quem tem
padrinho vivo
não morre nunca
pagão.
Há 500 anos propalamos:
este é o país do
futuro,
antes tarde do
que nunca,
mais vale quem
Deus ajuda
e a Europa ainda
se curva.
Há 500 anos
somos raposas
verdes
colhendo uvas
com os olhos,
com tempestades
na boca,
com suíças
militares,
e papagaios em
Haia,
e sobradamos
mocambos,
joaquim silvério
e derrama,
e o futebol nos
conclama,
e salve-se quem
puder,
num carnaval de
mulatas.
Este é um país de síndicos em geral,
este é um país de cínicos em geral,
este é um país de civis e generais.
Este é o país do
descontínuo
onde nada
congemina,
na eletrônica
oficina.
Nada nada
congemina:
a mão leve do
político
com nossa dura
rotina,
e nossa sede
canina,
e a nossa fé em
ruína,
a placidez
desses santos
e nossa dor
peregrina,
e nesse mundo
às avessas
– a cor da
noite é obsclara
e a claridez
vespertina.
3
Sei que há outras pátrias. Mas
mato o touro nesta Espanha,
planto o lodo neste Nilo,
caço o almoço nesta Zâmbia,
me batizo neste Ganges,
vivo eterno em meu Nepal.
Esta é a rua em
que brinquei,
a bola de meia
que chutei,
a cabra-cega que
encontrei,
o passa-anel que
repassei,
a carniça que
pulei.
Este é o país que pude
que me deram
e ao que me dei,
e é possível que por ele, imerecido,
– ainda me
morrerei.
4
Minha geração se fez de terços e rosários:
– um terço se exilou
– um terço se
fuzilou
– um terço
desesperou
nessa missa
enganosa
– houve sangue e
desamor. Por isto,
canto-o-chão mais áspero e cato-me
ao nível da
emoção.
Caí de quatro
animal
sem compaixão.
Uma coisa é um
país,
outra uma cicatriz.
outra a abatida cerviz.
outra esses duros perfis.
Deveria eu catar os que sobraram,
os que se arrependeram,
os que sobreviveram em suas tocas
e num seminário de erradios ratos
– expliquem-me a
mim
e ao meu país?
Vivo no século vinte, sigo para o vinte e um
ainda preso ao dezenove
como um tonto
guarani
e aldeado vacum.
Sei que daqui a pouco
não haverá mais
país.
País:
loucura de quantos
generais a cavalo
escalpelando
índios nos murais,
queimando
caravelas e livros
– nas fogueiras
e cais,
homens gordos
melosos sorrisos comensais
politicando
subúrbios e arando votos
e benesses nos
palanques oficiais.
Leio, releio os exegetas.
Quanto mais leio, descreio. Insisto?
Deve ser um mal do século.
– se não for um mal de vista.
Já pensei: – é erro meu. Não nasci no tempo certo.
Em vez de um poeta
crente
sou um profeta
ateu.
Em vez da epopéia
nobre,
os de meu tempo me
legam
como tema
– a farsa
e o amargo riso
plebeu.
5
Mas sigo o meu trilho. Falo o que sinto
e sinto muito o que falo
– pois morro
sempre que calo.
Minha geração se fez de lições mal-aprendidas
– e classes
despreparadas.
Olhávamos ávidos o calendário. Éramos jovens.
Tínhamos a "história" ao nosso lado. Muitos
maduravam um rubro outubro
outros iam
ardendo um torpe agosto.
Mas nem sempre ao verde abril
se segue a flor de
maio.
Às vezes se segue o fosso
– e o roer do
magro osso.
E o que era a revolução outrora
agora passa à convulsão inglória.
E enquanto ardíamos a derrota como escória
e os vencedores nos palácios espocavam seus champanhas
sobre a aurora
o reprovado aluno aprendia
com quantos paus
se faz a derrisória estória.
Convertidos em alvo e presa da real caçada
abriu-se embandeirado
um festival de
caça aos pombos
– enquanto raiava
sangüínea e fresca a madrugada.
Os mais afoitos e
desesperados
em vez de regressarem como eu
sobre os
covardes passos,
e em vez de abrirem suas tendas para a fome dos desertos,
seguiram no horizonte uma miragem
e logo da luta
passaram
ao luto.
Vi-os lubrificando suas armas
e os vi tombados
pelas ruas e grutas.
Vi-os arrebatando louros e mulheres
e serem
sepultados às ocultas.
Vi-os pisando o palco da tropical tragédia
e por mais que os
advertisse do inevitável final
não pude lhes
poupar o sangue e o ritual.
Hoje
os que sobraram vivem em escuras
e européias alamedas, em subterrâneos
de saudade, aspirando a um chão-de-estrelas,
plangendo um violão com seu violado desejo
a colher flores em suecos cemitérios.
Talvez
todo o país seja
apenas um ajuntamento
e o conseqüente
aviltamento
– e uma
insolvente cicatriz.
Mas este é o
que me deram,
e este é o que
eu lamento,
e é neste que
espero
– livrar-me do
meu tormento.
Meu problema,
parece, é mesmo de princípio:
– do prazer e da realidade
– que eu pensava
com o tempo resolver
– mas só agrava
com a idade.
Há quem se ajuste
engolindo seu fel com mel.
Eu escrevo o desajuste
vomitando no papel.
6
Mas este é um povo bom
me pedem que
repita
como um monge
cenobita
enquanto me dão
porrada
e me vigiam a
escrita.
Sim. Este é um povo bom. Mas isto também diziam
os faraós
enquanto
amassavam o barro da carne escrava.
Isso digo toda noite
enquanto me
assaltam a casa,
isso digo
aos montes em
desalento
enquanto recolho meu sermão ao vento.
Povo. Como
cicatrizar nas faces sua imagem perversa e una?
Desconfio muito do povo. O povo, com razão,
– desconfia muito de mim.
Estivemos juntos na praça, na trapaça e na desgraça,
mas ele não me entende
– nem eu posso
convertê-lo.
A menos que suba estádios, antenas, montanhas
e com três mentiras eternas
o seduza para além
da ordem moral.
Quando cruzamos pelas ruas
não vejo nenhum carinho ou especial predileção nos seus
olhos.
Há antes incômoda suspeita. Agarro documentos, embrulhos,
família
a prevenir mal-entendidos sangrentos.
Daí, já vejo as
manchetes:
– o poeta que
matou o povo
– o povo que
só/çobrou ao poeta
– (ou o poeta
apesar do povo?)
– Eles não vão te perdoar
– me adverte o
exegeta.
Mas como um país não é a soma de rios, leis, nomes de
ruas, questionários
[e geladeiras,
e a cidade do interior não é apenas gás neon, quermesse e
fonte luminosa,
uma mulher também não é só capa de revista, bundas e
peitos fingindo que
[é coisa nossa.
Povo
também são os falsários
e não apenas os operários,
povo
também são os sifilíticos
não só atletas e
políticos,
povo
são as bichas, putas e artistas
e não só
escoteiros
e heróis de
falsas lutas,
são as costureiras e dondocas
e os carcereiros
e os que estão nos eitos e docas.
Assim como uma religião não se faz só de missas na
matriz,
mas de mártires e esmolas, muito sangue e cicatriz,
a escravidão
para resgatar os
ferros de seus ombros
requer
poetas negros que refaçam seus palmares e quilombos.
Um país não pode
ser só a soma
de censuras redondas e quilômetros
quadrados de aventura, e o povo
não é nada novo
– é um ovo
que ora gera e
degenera
que pode ser coisa
viva
– ou ave torta
depende de quem o põe
– ou quem o gala.
7
Percebo
que não sou um
poeta brasileiro. Sequer
um poeta mineiro.
Não há fazendas, morros,
casas velhas,
barroquismos nos meus versos.
Embora meu pai
viesse de Ouro Preto com bandas de música polícia militar casos
[de assombração e uma alma milenar,
embora minha mãe fosse imigrando hortaliças protestantes
tecendo filhos nas
[fábricas e amassando a fé e o pão,
olho Minas com um amor distante,
como se eu, e não minha mulher
– fosse um poeta
etíope.
Fácil não era apenas ao tempo das arcádias
entre cupidos e sanfoninhas,
fácil também era ao tempo dos partidos:
– o poeta sabia
"história"
vivia em sua
"célula",
o povo era seu
hobby e profissão,
o povo era seu
cristo e salvação.
O povo, no entanto, não é o cão
e o patrão
– o lobo. Ambos são povo.
E o povo sendo ambíguo
é o seu próprio cão e lobo.
Uma coisa é o povo, outra a fome.
Se chamais povo à malta de famintos,
se chamais povo à marcha regular das armas,
se chamais povo aos urros e silvos no esporte popular
então mais amo uma manada de búfalos em Marajó
e diferença já não há
entre as formigas que devastam minha horta
e as hordas de gafanhoto de 1948
– que em carnaval
de fome
o próprio povo celebrou.
Povo
não pode ser
sempre o coletivo de fome.
Povo
não pode ser um
séquito sem nome.
Povo
não pode ser o
diminutivo de homem.
O povo, aliás,
deve estar cansado
desse nome,
embora seu instinto o leve à agressão
e embora
o aumentativo de fome
possa ser
revolução.
Mentiram-me.
Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente.
Mentem de corpo e alma completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.
Mentem sobretudo impunemente.
Não mentem tristes,
alegremente mentem.
Mentem tão nacionalmente
que acho que mentindo história a fora
vão enganar a morte eternamente.
Mentem, mentem e calam
mas nas frases falam e desfilam de tal modo nuas
que mesmo o cego pode ver a verdade em trapos pelas ruas.
Sei que a verdade é difícil e para alguns é cara e escura,
mas não se chega à verdade pela mentira
nem à democracia pela ditadura.
Evidentemente crer que uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo permanentemente.
Mentem, mentem caricaturalmente,
mentem como a careca mente ao pente,
mentem como a dentadura mente ao dente
mentem como a carroça à besta em frente,
mentem como a doença ao doente,
mentem como o espelho transparente
mentem deslavadamente como nenhuma lavadeira mente ao ver a nódoa sobre o
rio
mentem com a cara limpa e na mão o sangue quente,
mentem ardentemente como doente nos seus instantes de febre,
mentem fabulosamente como o caçador que quer passar gato por lebre
e nessa pilha de mentiras a caça é que caça o caçador
e assim cada qual mente indubitavelmente.
Mentem partidariamente,
mentem incrivelmente,
mentem tropicalmente,
mentem hereditariamente,
mentem, mentem e de tanto mentir tão bravamente
constroem um país de mentiras diariamente.
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025
Disse tudo (VI)
Esse é o paradoxo do identitarismo, embora tenha surgido como um movimento para tratar da diferença, ele mesmo não consegue lidar com o diferente
em defesa da psicanalista Maria Rita Kehl, linchada virtualmente depois de ter criticado o movimento identitário por ela classificado como um nicho narcísico. Cirúrgica, disse tudo em duas palavras.
terça-feira, 11 de fevereiro de 2025
Disse tudo (V)
O Rio é essa cidade em que tudo parece possível, e nada se realiza.
Carlos Heitor Cony
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025
A miséria da justiça brasileira.
Instado pelo STF a explicar o aumento de R$2000,00 para R$10000,00 do valor do vale-alimentação aos funcionários do TJ-MT em dezembro passado, jocosamente apelidado de vale-peru, seu presidente na manifestação enviada ao Supremo, lá pelas tantas saiu-se com essa pérola:
Tal benefício não deve se limitar a um mero caráter formal, mas sim assegurar a cobertura das necessidades nutricionais diárias da pessoa humana, com dignidade, equilíbrio e em conformidade com as boas práticas alimentares.
Jurisdiquês + cara de pau dá nisso aí. É por essa e outras muito mais graves, que nosso Índice de Confiança na Justiça elaborado pela Fundação Getúlio Vargas, alcança meros 34%.
Desembargador José Zuquim Nogueira, vá se catar!