quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

A beira de um ataque de nervos.

De tempos em tempos, a turma do andar de cima em Pindorama -  poderosos da política, da economia, e vamos lá da sociedade -  é abalada por um sismo que instaura um clima de barata-voa  entre seus membros. Foi assim com a LavaJato, e agora com a liquidação do Banco Master. Quando a água sobe a níveis insuportáveis para o bum-bum dos homens honrados da nossa república tropical, movimentos estranhos são desencadeados, decisões incomuns são tomadas por membros encastelados nos altos níveis das nossas instituições. Movimentos que certamente visam estancar a sangria - expressão consagrada pelo ex-senador Romero Jucá - que a liquidação do banco provocou.

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Quem conhece  o mercado financeiro afirma que a liquidação já devia ter acontecido a mais tempo. Só não o foi por pressão de instâncias poderosas sobre o BC. Há muita gente graúda envolvida, desde gestoras de investimento da Faria Lima, CVM, agências de risco,  passando pelos poderes Legislativo - tentativa de aprovação de projeto do Centrão para demitir presidente do BC e de projeto para aumentar o limite do FGC - e Judiciário - envolvimento inédito  de membros do STF e do TCU, envolvimento de familiares de ministros com o Banco. 

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Convivo com as mazelas do nosso país fazem 74 anos. Acredito mais na resiliência da constelação de promíscuos poderes que nos comandam desde o Descobrimento - LavaJato está aí para provar - do que em uma operação que puna quem tem responsabilidades no caso. Nossas instituições são reféns desses grupos de poder que  jamais permitirão que isso aconteça. Ou você acha que eles darão um tiro no próprio pé?

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É dura a vida em LatinoAmérica! ... mas eu sou um cara chato, ranzinza. Afinal... somos um povo alegre, vivemos num país abençoado por Deus e bonito por natureza. O ano começa com bons ventos... temos uma Copa do Mundo em julho e podemos nos tornar hexacampeões...já ganhamos dois Globos de Ouro e podemos ganhar mais Oscars no cinema... temos uma jóia no circuito do tênis masculino mundial que pode desbancar o Sinner e o Alcaraz... o Carnaval está chegando e eu vivo na cidade mais bonita do mundo. Tenho mais é que fazer coro com a Beth Carvalho, no samba de Jorge Aragão:

- Vou festejar, vou festejar...

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Bonjour, vieillesse!

.... parafraseando Bonjour tristesse,  titulo de um  romance de Françoise Sagan que já mereceu algumas versões para o cinema.

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2025 foi o ano em que fui apresentado à velhice. Suas dores típicas, alvo das queixas de outros contemporâneos, passaram a ser minhas também. Apossaram-se de partes do meu corpo, tolheram a liberdade de meus movimentos, tornaram-se parte da rotina.  Posso dizer - finalmente (?) -  sou um velho. 

A memória  rateava, mas nada além do que relatavam os colegas. Fisicamente orgulhava-me das longas caminhadas que sinalizavam minha resiliência física, mesmo com um prontuário recheado de intercorrências médicas. Fui forçado a reduzi-las, diante das persistentes dores no ombro e no quadril esquerdo, o lado mais afetado pelo acidente de 40 anos atrás e provavelmente  a causa maior  da malaise.  - Aqui se faz, aqui se paga... é aforismo certeiro para o tratamento que damos ao corpo em nossas vidas. 

Estou de molho, observando o comportamento da dor. Consulto médicos, aguardo resultados de  exames, tentando identificar os problemas. Certamente, não me livrarei das dores. Aceito-as estoicamente, fazem parte da quadra da vida em que me encontro. Oxalá os deuses, de mim se apiedem e permitam que eu continue com minhas caminhadas. Além dos livros, são a alegria que me resta. Fazem bem à minha alma.

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Realizações? Fiquei abaixo das expectativas. Não consegui concluir as obras de um apartamento que comprei no final do ano que passou. 

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Projetos? Pesa sobre mim aquele do Caminho de Santiago. Não me canso de adiá-lo, assistindo ao mesmo tempo, o espectro das limitações físicas crescendo. 

Gostaria de conhecer pelo menos o nosso país. Comprar uma pick-up 4x4 e sair por aí sem lenço e sem documento.  Será que conseguirei? 

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Mais um ano gregoriano e mais presente a sensação de finitude. A distância que me separa do fim - outra vida? o retorno ao nada? - diminue, e diminue, e diminue... 

A solidão não é para os fracos (II)

Schopenhauer pode não ter sido um grande filósofo mas certamente é um filósofo indigesto. Concebeu o ser humano como um ser submetido ao grilhão de uma vontade irracional, insconsciente e  insaciável. Satisfeito um desejo, sobrevém o tédio e a compulsão por um novo. A insatisfação é permanente;  o sofrimento torna-se componente inseparável da existência. 

(Sim, estou simplificando; duas ou três frases não abarcam sua filosofia,  mas são o bastante para o tema da postagem) 

Indigesto, não? Ainda mais em tempos de felicidade instagramável, expressa nos rostinhos sorridentes e corpos perfeitos dos perfis pessoais das redes sociais. Notabilizado por seus comentários mordazes, imagino o que Schopenhauer escreveria a respeito do nosso espírito do tempo.

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Entretanto, ele foi  generoso com a solidão e os solitários. Apesar das fontes não serem livros do autor ou sobre sua obra/filosofia, ele invariavelmente é citado quando aborda-se o  tema:

A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais.

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Quem não ama a solidão, não ama a liberdade.

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A solidão concede ao homem intelectualmente superior uma vantagem dupla: primeiro, a de estar só consigo mesmo; segundo, a de não estar com os outros. Esta última será altamente apreciada se pensarmos em quanta coerção, quanto dano e até mesmo quanto perigo toda a convivência social traz consigo.
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Não é lisonjeiro para quem é tão mal avaliado socialmente?


segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

A solidão não é para os fracos.

As festas do final de ano caracterizadas como uma celebração do encontro entre familiares, colegas de trabalho,  amigos, pessoas próximas...sempre trazem à baila a questão da solidão e das pessoas que tocam o barco da vida como barqueiros-só. Nestes dias, sentem-se como ilhas, rodeadas por festas de confraternização por todos os lados. Para a grande maioria, haja  constrangimento, inadequação, desconforto, e até mal-estar a depender da história de cada um.

A situação certamente motivou a coluna de Eduardo Affonso  para o Globo de 27.12 dedicada à solidão e recheada de frases retiradas de canções da nossa música popular sobre ela. Com alegria descobri no cronista um coleguinha na condição - definiu-se como um solitário crônico. Não sei o que ele quer dizer com crônico mas espero que seja a de um solitário de fato e de direito: vive e mora só. Há os solitários de butique e uma legião que não se reconhece na condição, embora tenha uma vida social intensa, ou divida o mesmo teto com companheiro ou companheira. 

Chamou minha atenção a frase: - Há a crença de que as pessoas solitárias fracassaram; ninguém as quis. Eu acrescentaria: -... foram incompetentes. Não conseguiram arrumar ninguém. É o que elabora o imaginário social; o solitário é considerado um pária. Do alto dos meus 74 anos, penso que teria sido melhor ter embarcado em alguma das situações que a vida me ofereceu - uma, qualquer uma! como reza a canção - a ter que conviver com esse estigma. Quanto à solidão, não me incomoda, tampouco a temo. O desconforto vem de fora, não parte do meu interior. 

(voltando à nossa música popular...)

-  Lamento Dolores, mas a solidão não acabou comigo.