Estou relendo a Odisséia, motivado pela exibição do filme e da animada polêmica que se estabeleceu em torno dele. Se em raríssimas vezes um filme conseguiu superar o livro que o inspira, imagine com a Odisséia que foi transmitida oralmente pelos aedos - poetas que cantavam e transmitiam os feitos da guerra de Tróia - por cerca de quatro séculos, até ser manuscrita por volta do século VIII a.C. Homero foi um deles e provavelmente não o único autor. Motiva-me a curiosidade para saber das traquinagens praticadas pelo diretor com o texto da epopéia grega, tida por muitos como o maior poema épico da literatura ocidental. Na média são positivos os comentários, artigos e críticas ao filme que lí, mas tenho uma premonição de que ele tem pouco tem a ver com o livro. Comentarei após tê-lo assistido.
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A tradução que leio é de Christian Werner, publicada pela finada CosacNaify em 2014. Odisseu é um herói caracterizado pela sagacidade, ardilosidade, muito mais do que pelos feitos que premiam o esforço que eu classificaria como atlético e que está atrelados mais a habilidades físicas, atributos que distinguem particularmente Aquiles, o protótipo do herói guerreiro grego. A tradução atrela Odisseu com frequência a termos como muita astúcia, muito truque, muita argúcia, mente ardilosa a adjetivos como atilado; mais raramente lhe são atribuidos juizo-paciente, muita tenência. Arrasa-urbe tem poucas citações, apesar da matança dos pretendentes de Penélope que promoveu no seu retorno a Ítaca auxiliado por seu filho Telêmaco.
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Algo a ver com a esperteza e a malandragem brasileiras? Certamente elas estão associadas a astúcia e sagacidade mas a finalidade da nossa malandragem/esperteza é a de driblar regras e conseguir objetivos sem empenhar muito esforço ou sendo mais radical, sem nenhum esforço. Não, a esperteza de Odisseu não tem nada a ver com a nossa malandragem. Não será um grego que irá nos desbancar.
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