segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Odisseu, um herói "malandro"? (I)

Estou relendo a Odisséia, motivado pela exibição do filme e da polêmica que se estabeleceu em torno dele. Se em raríssimas vezes um filme conseguiu superar o livro que o inspira, imagine com a Odisséia que foi transmitida oralmente por cerca de quatro séculos por poetas que cantavam e transmitiam os feitos da guerra de Tróia. E quem conta um conto, acrescenta um ponto... diz o ditado. Só foi manuscrita por volta do século VIII a.C. Homero quase que certamente não foi o único autor. Estou curioso para conferir o tratamento dado pelo diretor para  um texto dissecado pelos literatos por mais de 20 séculos e fundante da cultura ocidental, hoje criticadíssima pela intelligentsia progressista. 

A tradução que leio é de Christian Werner, publicada pela  finada CosacNaify em 2014. Odisseu é um herói caracterizado pela sagacidade, ardilosidade - não é gratuito que Atena e Hermes sejam seus companheiros frequentes no plano divino -  muito mais do que pelos feitos que premiam a força física, atributos que distinguem  Aquiles e Heitor,  protótipos do herói guerreiro  na Ilíada.  A tradução atrela Odisseu com  frequência a termos como muita astúcia, muito truque, muita argúcia, mente ardilosa a adjetivos como atilado; mais raramente lhe são atribuidos juizo-paciente, muita tenência. Arrasa-urbe tem poucas citações, apesar da matança dos pretendentes de Penélope que promoveu no seu retorno a Ítaca auxiliado por seu filho Telêmaco.

********

Algo a ver com a esperteza e a malandragem brasileiras? Certamente ambas estão associadas a astúcia e sagacidade mas nossa malandragem/esperteza busca  driblar  regras e conseguir objetivos sem empenhar muito esforço ou sendo mais radical, sem nenhum esforço. Até virou modo de vida.  

A ardilosidade de Odisseu pouco tem a ver com a amplitude da nossa malandragem. Ele tem um caráter mais restrito; utiliza-a como recurso final. Aconteceu  no episódio com o cíclope Polifemo. Através de diversos ardis consegue se livrar do monstro que certamente o abateria em uma combate em campo aberto usando a   força física. Era a opção que lhe restava para continuar vivo e retornar para sua Ítaca natal.

*********

Preciso conferir o que o diretor fez com a epopéia. Os críticos, na sua maioria, aplaudiram. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário