Assustadoras. Nada comparáveis àquelas que assolam a alma, Devastam com maior intensidade.
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
domingo, 9 de fevereiro de 2014
O que se pode saber de um homem?
Somos aquilo que fazemos com o que querem fazer de nós.
(Jean Paul Sartre)
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Lisbon Revisited (1926)
Nada me prende a nada.
Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.
Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.
Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...
Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;
ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.
Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.
Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...
Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?
Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.
Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...
Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...
Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!...
Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoahttp://www.citador.pt/poemas/lisbon-revisited-1926-alvaro-de-camposbrbheteronimo-de-fernando-pessoa
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Pois é...
Saber que o mundo real não corresponde aos nossos sonhos é uma coisa. Outra coisa é conduzir a vida de acordo com essa percepção.
Marcelo Coelho - Tango Argentino - Folha, 29.01.2014
Marcelo Coelho - Tango Argentino - Folha, 29.01.2014
...e o copo transbordou.
Cheguei desarmado. Vinha de outra reunião e não fazia idéia do que me aguardava.
Ofereci
a mão aberta, calorosa. Ele a ofereceu crispada. Senti, então, que
seria matar ou morrer. Ele quis me enquadrar. Não tem
história nem estofo. Assumí um erro; tê-lo bypassado no email mas
reafirmei o texto que era uma mera colocação de fatos - real - e uma
interpretação - esta sim passível de discussão que será eterna pois
envolve uma decisão em que há um óbvio conflito de interesses envolvido.
As idiossincrasias de paises como o nosso, criam zonas cinzentas, poços profundos repletos de suspeição e mal-entendidos. Ele tem a
sua versão que é a oficial. Não acredito em versões oficiais faz tempo; são
sempre - repito: sempre! - meias-verdades. Talvez tenha sido precipitado com as palavras, talvez devesse tê-lo copiado no email, mas pensando bem, nada mudaria minha visão dos fatos. Suas justificativas seriam as mesmas e como ele não tem credibilidade comigo, haveria uma acomodação forçada, uma postergação do dia do juizo. Aquele era o dia. Tanto o previra que pusera de sobreaviso um outro gerente da possibilidade de no futuro ir trabalhar com ele. Aqui mesmo em diversos posts deixei clara essa possibilidade. Saio para outra gerência; avalio onde poderei ser mais útil para a atividade pela qual batalhei duro na companhia - motivação maior do meu trabalho - e onde colherei melhores frutos profissionalmente.
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A Internet tem dado as cartas na minha vida nesses dois últimos anos. Janeiro desenha-se como meu mês dos furacões... da alma. No ano que passou - criminosamente - tentaram me destruir em um blog; nesse ano um email que enviei para a alta gerência desatou o Apocalipse.
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E não é que 2014 prometia mesmo?
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E não é que 2014 prometia mesmo?
domingo, 19 de janeiro de 2014
Deus
A pergunta fundamental, a única que realmente é
pergunta, pois todas as demais são respostas disfarçadas, é a da
existência de Deus. Se Deus existe ou não, é problema da filosofia. Se
eu creio ou não em Deus, é o meu problema.
Ao terminar um romance coloquei na boca de um personagem a frase que
podia ser minha: "Deus acabou". Friso: não fiz o personagem afirmar:
"Deus não existe". Ou: "Não creio em Deus". Faço-o dizer como eu mesmo
me digo nas horas de angústia e tédio: Deus acabou.
Nos idos do passado, fui participar de um programa de TV apresentado por Ary Barroso, que mantinha uma espécie de debate sobre determinado assunto. Fui lá com o Austregésilo de Athayde debater a emocionante questão: Deus existe? Austregésilo defendeu a afirmativa, a mim coube defender a negativa.
Evidente, discutiu-se uma tese e não um problema pessoal. Ressuscitamos velhas questões, os argumentos de causalidade, os cinco famosos argumentos de São Tomás, a tese da realidade manifesta. O debate foi erudito e não se chegou a nenhuma conclusão. Athayde saiu de lá crendo, eu saí não crendo e Ary Barroso saiu ora crendo, ora não crendo.
Posso hoje confessar: não fui sincero naquele programa. Não que realmente acredite em Deus, mas escamoteei meu verdadeiro pensamento. Não me interessa saber se Deus existe ou inexiste. O que importa é que Deus acabou para mim. Tive Deus e gastei Deus demais. Fui um perdulário de Deus. Errei nos meus cálculos. Gastei demasiadamente um capital inesgotável. Ora, cada um de nós tem uma determinada quota de Deus. Meu capital não era tão grande como pensava, e gastei muito e depressa.
Como o filho pródigo, fui impaciente e me atirei a gozar a fundo. Um dia, amanheci pobre e nu, disputando com os porcos os restos de comida que sobravam da mesa dos mais prudentes.
Carlos Heitor Cony - Folha, 19.01.2014
Nos idos do passado, fui participar de um programa de TV apresentado por Ary Barroso, que mantinha uma espécie de debate sobre determinado assunto. Fui lá com o Austregésilo de Athayde debater a emocionante questão: Deus existe? Austregésilo defendeu a afirmativa, a mim coube defender a negativa.
Evidente, discutiu-se uma tese e não um problema pessoal. Ressuscitamos velhas questões, os argumentos de causalidade, os cinco famosos argumentos de São Tomás, a tese da realidade manifesta. O debate foi erudito e não se chegou a nenhuma conclusão. Athayde saiu de lá crendo, eu saí não crendo e Ary Barroso saiu ora crendo, ora não crendo.
Posso hoje confessar: não fui sincero naquele programa. Não que realmente acredite em Deus, mas escamoteei meu verdadeiro pensamento. Não me interessa saber se Deus existe ou inexiste. O que importa é que Deus acabou para mim. Tive Deus e gastei Deus demais. Fui um perdulário de Deus. Errei nos meus cálculos. Gastei demasiadamente um capital inesgotável. Ora, cada um de nós tem uma determinada quota de Deus. Meu capital não era tão grande como pensava, e gastei muito e depressa.
Como o filho pródigo, fui impaciente e me atirei a gozar a fundo. Um dia, amanheci pobre e nu, disputando com os porcos os restos de comida que sobravam da mesa dos mais prudentes.
Carlos Heitor Cony - Folha, 19.01.2014
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
Você tem borogodó?
Entrevistei uma jornalista de 45 anos para o meu livro "Por que Homens e Mulheres Traem?".
Ela disse ser alvo da inveja de suas amigas por ser uma "mulher livre, não ter filhos e poder transar com quem quer e quando quer".
Suas amigas casadas reclamam que o casamento é uma rotina, que gostariam de ter tido outras experiências, que a vida sexual é ruim, que não existe mais romance e que os filhos atrapalham.
Elas se sentem aposentadas compulsoriamente de uma vida amorosa e sexual satisfatória.
As amigas solteiras sofrem com a falta de segurança e de continuidade das relações amorosas. Reclamam que falta homem no mercado.
A jornalista disse: "Para as minhas amigas, sou quase um mito, já que acham que estou sempre namorando, transo todos os dias e nunca reclamo dos meus homens. Na verdade, fico com homens com quem elas jamais pensariam em ficar. Não ligo se eles nunca ouviram falar de Simone de Beauvoir ou se ganham muito menos do que eu. O que me interessa é que eles sejam carinhosos, me respeitem e me tratem como alguém especial".
Ela contou o caso de uma amiga bem mais jovem e bonita: "Uma madrugada ela ligou para reclamar que eu tinha ficado com um cara que ela estava paquerando. O cara, na minha cama, tentou explicar por que tinha ficado comigo".
Ele disse: "Você tem borogodó, ela não tem. Mulher que quer se fazer de menininha não tem borogodó. Mulher ansiosa e carente demais, desesperada para agarrar um homem, não tem borogodó. Mulher preocupada com rugas, estrias e celulites não tem borogodó. Borogodó tem a ver com segurança, com se sentir bem na própria pele. Algumas mulheres são lindas, mas não têm borogodó. Outras, mais velhas e nem tão bonitas, são charmosas, interessantes, maduras e atraentes".
Ele concluiu: "Até pensei em ficar com sua amiga, mas ela estava se esforçando tanto para me agradar que logo desisti. Quando você chegou ela sumiu do mapa. Fiquei encantado com seu sorriso, sua espontaneidade, sua segurança. Você tem borogodó, ela não. O próprio fato de ligar de madrugada prova a minha teoria. Mulher chata não tem borogodó".
E você? Tem ou não tem borogodo?
Míriam Goldemberg- Folha, 14.01.2014
Ela disse ser alvo da inveja de suas amigas por ser uma "mulher livre, não ter filhos e poder transar com quem quer e quando quer".
Suas amigas casadas reclamam que o casamento é uma rotina, que gostariam de ter tido outras experiências, que a vida sexual é ruim, que não existe mais romance e que os filhos atrapalham.
Elas se sentem aposentadas compulsoriamente de uma vida amorosa e sexual satisfatória.
As amigas solteiras sofrem com a falta de segurança e de continuidade das relações amorosas. Reclamam que falta homem no mercado.
A jornalista disse: "Para as minhas amigas, sou quase um mito, já que acham que estou sempre namorando, transo todos os dias e nunca reclamo dos meus homens. Na verdade, fico com homens com quem elas jamais pensariam em ficar. Não ligo se eles nunca ouviram falar de Simone de Beauvoir ou se ganham muito menos do que eu. O que me interessa é que eles sejam carinhosos, me respeitem e me tratem como alguém especial".
Ela contou o caso de uma amiga bem mais jovem e bonita: "Uma madrugada ela ligou para reclamar que eu tinha ficado com um cara que ela estava paquerando. O cara, na minha cama, tentou explicar por que tinha ficado comigo".
Ele disse: "Você tem borogodó, ela não tem. Mulher que quer se fazer de menininha não tem borogodó. Mulher ansiosa e carente demais, desesperada para agarrar um homem, não tem borogodó. Mulher preocupada com rugas, estrias e celulites não tem borogodó. Borogodó tem a ver com segurança, com se sentir bem na própria pele. Algumas mulheres são lindas, mas não têm borogodó. Outras, mais velhas e nem tão bonitas, são charmosas, interessantes, maduras e atraentes".
Ele concluiu: "Até pensei em ficar com sua amiga, mas ela estava se esforçando tanto para me agradar que logo desisti. Quando você chegou ela sumiu do mapa. Fiquei encantado com seu sorriso, sua espontaneidade, sua segurança. Você tem borogodó, ela não. O próprio fato de ligar de madrugada prova a minha teoria. Mulher chata não tem borogodó".
E você? Tem ou não tem borogodo?
Míriam Goldemberg- Folha, 14.01.2014
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