sábado, 15 de outubro de 2016

Vanguarda do atraso.

Em O Ópio dos Intelectuais,  Raymond Aron no primeiro capítulo O Mito da Esquerda nos remete às raízes dessa clivagem na França. Discorrendo sobre a Revolução Francesa escreveu:
Grandiosa ou horrível, a catástrofe ou epopéia revolucionária dividiu  em duas a história da França. Parece ter criado duas Franças, posicionando uma contra a outra, a primeira querendo desaparecer e a segunda sem se cansar de dar prosseguimento a uma cruzada contra o passado. Cada uma delas supostamente encarna um tipo humano quase eterno. De um lado evoca-se a família, a autoridade, a religião; do outro a igualdade, a razão, a liberdade. Em uma se respeita a ordem que séculos e séculos lentamente elaboraram, em outra se coloca como  bandeira, a capacidade de homem para reconstruir a sociedade pelos dados da ciência. A direita, partido da tradição e dos privilégios, contra a esquerda, partido do futuro e da inteligência.
Talvez, na França,  porque no Brasil... Em um passado nem tão distante assim,  nossa esquerda - leia-se PT - foi contra a Constituição de 88, contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, contra os exames do ENEM. Lembro que foram contra medidas que permitiam que os próprios consumidores abastecessem os carros nos postos de gasolina, não queriam abolir a função do cobrador no ônibus. Hoje, batem-se contra o Uber, defendem a poluidora e bucaneira indústria dos combustíveis fósseis - ideário comum ao Partido Republicano nos EUA-  lutam contra o estabelecimento de uma idade mínima para a aposentadoria, hipotecando o futuro de seus  filhos. Combatem a Lava-Jato, que apesar dos arroubos de Torquemada de alguns de seus promotores, é uma das raras luzes a brilhar  na escuridão da nossa  atual vida pública.
Pasmem! -  consideram-se  os legítimos representantes dos setores progressistas da nação. É ou não é kafkiano esse país?

Batendo às portas do céu.





Daily Herald/Mirrorpix/Getty Images
... e não é que o velho bardo levou o Nobel?  Não era para tanto. Foi uma escorregada populista da Academia. A secretária no comunicado do prêmio falou em Homero e Safo. Bob Dylan comparado a eles?
Ele compôs letras e músicas com as quais toda uma geração se identifica, embora cantor e músico sofrível, mas citar Homero como justificativa para a indicação é um pouco demais.
 Knockin' on Heaven's Door, versão remasterizada da trilha sonora de Pat Garret & Billy The Kid  de  Sam Peckimpah onde  faz uma ponta,  é tudo de bom!

http://tidido.com/a35184372109582/al5601ab1ee7c622686ad39022/t5601ab1fe7c622686ad39103

Hoje leio em um artigo do Nelson Motta para O Globo (17.10), duas frases a ele atribuidas que me impressionaram . A que está abaixo eu conhecia de anos e mostra como ele está se lixando prá tudo o que escrevem de sua obra e suas letras:
O que quer que fosse a contracultura, eu estava de saco cheio dela, de interpretações malucas das minhas letras e de ter sido ungido o Chefão da Revolta, o Grande Sacerdote do Protesto, o Czar da Discordância, o Duque da Desobediência, o Líder dos Doidões
Esta, que desconhecia  - faz parte da letra de Absolute Sweet Mary do álbum Blonde on Blonde (1966) -  é prá pirar rebeldes Zona Sul :
  To live outside the law you must be honest.
P.S. -  ... e parece que o bardo vai dar uma banana para a Academia. Até agora não deu a mínima prá indicação

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Empoderar. ( blergh....! )


Palavrinha que faz os nossos mudernos  - leia-se, a maior parte da nossa elite cultural e intelectual - encherem a boca e estufarem o peito.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Agora, velho!

Aniversários sempre ensejam que se fale do tempo. Agora posso me considerar um velho. Foram 5 anos - dos 60 aos 65 -  atravessando os umbrais da velhice. Neles vivi  sua superfície; a partir de hoje nela mergulho. Ela incomoda pelas restrições físicas que impõe; os anos deixam marcas no corpo, trazem  fadiga para o material que começa a ratear. Além de mais curta, minha perna esquerda dobra no máximo, 90 graus; um glaucoma reduziu a visão do meu olho direito em 80%; sou hipertenso e anticoagulado.  Viver é ser usado e em alguns casos, abusado  pelo tempo. Aproxima-se a hora em que será feito o convite para que dele, eu me retire. Um convite que não aceita recusas.
Sinto que as margens da vida se estreitam, que o futuro é logo ali, que sempre pode ser a última vez. Que não há tempo a perder porque ele se tornou um artigo raro e caro. Que é preciso ser seletivo com os vinhos e com as pessoas. Que o outro e a vida são  sempre paradoxais; as mulheres então! Que bem e mal, certo e errado são apenas end-points teóricos de uma escala; nunca os alcançaremos. Que todos temos um  lado A e outro B e que quem melhor esconde o último é quem vai abocanhar o melhor que a vida oferece. Que falar é cada vez mais desnecessário.
Anyway... Caminhar é preciso.

Estou procurando a minha turma

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(...) a humanidade se divide em pessoas que fingem que se levam a sério e as que fingem que não se levam....
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Rui Castro - Folha, 07.10.2016

Desert Trip



Onde o crème de la crème da velharia se encontra. De hoje a domingo.

sábado, 1 de outubro de 2016

Viva todos os dias como se fosse o último...

...um dia você acerta!
A frase é atribuida a Woody Allen, mas Luiz Fernando Veríssimo diz que foi copiado. Não duvido, pois é um ótimo frasista.
 Ele está fazendo 80 anos. Foi um dos meus ídolos  nos tempos de universidade e de sonhos/ilusões de esquerda. Era leitor assíduo das suas crônicas e quadrinhos, não de seus livros. Lí seu pai, Érico que em O Tempo e o Vento criou uma personagem que me impacta até hoje: Ana Terra. 
LFV perdeu o fôlego com os anos. Fui me afastando, principalmente pelas diferentes posições políticas que temos.  Em O Globo de 24.09 ele diz que ainda continua achando que ...ou socialismo ou barbárie. Discordo. Além disso, nunca entendi bem sua opção pelo socialismo conjugada ao fato de todos os anos passar uma temporada em Paris como ele fazia - não sei se ainda o faz. Chico Buarque é do time. Tem, inclusive, um apartamento lá. Morassem num país de classe média, mas vivem em uma das sociedades mais desiguais do mundo! Sou daqueles que não sairia desfilando por aí com uma Ferrari. As condições sociais do país me constrangeriam a evitar situações como essa.
Divergências de concepções de mundo a parte, temos uma paixão em comum; o Colorado, agora a beira do abismo. Compartilho do seu sentimento de futuro, expresso em O Globo de 24.09. Afinal somos quasi companheiros na quadra da vida:
O que muda com a idade é que a gente perde a perspectiva longa. Tem aquela frase do Shakespeare:(...)onde cada terceiro pensamento será dedicado à minha sepultura. Quando você tem 30 anos, pensa no que vai fazer nos próximos 30 anos. Após os 80, isso acaba.