sexta-feira, 1 de maio de 2026

O espaço público é do povo.

Sou um andarilho. Foi o que me coube nos palcos da vida. A semana que findou, recheada de feriados  deu-me a oportunidade de andar cerca de 100kms entre orla, montanhas e florestas - as atuais protagonistas a justificarem a atributo de maravilha para a cidade. Nos últimos 20 anos, caminhar passou a ser  minha atividade principal  de fins de semana e feriados.  Posso, pois,  considerar-me um conhecedor razoável das transformações que tais lugares sofreram e vem sofrendo.

Se tivesse que citar algo que me chama a atenção neste período de tempo, sem dúvida o sequestro dos espaços públicos viria em primeiro lugar, particularmente na orla, quer pela própria população, por entes privados ou pelos  órgãos públicos. Alguns exemplos:

**************

- sou do tempo que a estátua do poeta Drummond reinava solitária no calçadão entre os postos 5 e 6 de Copacabana. Hoje ela submerge em meio a pranchões de stand-up paddle e barracas dos proprietários/promotores do que é vendido como um dos momentos mais instagramáveis da cidade: o nascer do sol em Copa.  

- A ponta do Arpoador, na minha opinião, é a vista mais bonita do Rio ao nível do mar. A distopia reinou absoluta nos últimos dois anos neste canto maravilhoso da cidade. Eu passo por alí todos os domingos entre 6:00/7:00h  da manhã e vi o espaço entre o final da praia e o posto 8 ser ocupado por um pessoal que vem do subúrbio e/ou da favela que  passa a noite inteira por lá. Carregam caixas de som, há muita bebida, e a bandalha corre solta. Imagino o que passa o pessoal que mora em frente. Numa manhã, alguém me interpelou ofertando-me cocaína... em inglês! A partir do Carnaval, entretanto, sumiram, provavelmente por alguma ação promovida pela prefeitura, e o trecho de praia voltou a ser o que se espera dele ao amanhecer. Um local quase deserto, habitado apenas pelos madrugadores.

- ... e por falar em Carnaval... durante a semana da folia, há uma ocupação massiva da orla particularmente Ipanema e Leblon. Banheiros químicos e containers de lixo brotam como cogumelos depois da chuva, cadeiras de praia pertencentes aos proprietários de estruturas sujas, velhas  que no mais das vezes se parecem com  barracos de favela,  multiplicam-se a tal ponto que pela manhã, pilhas delas junto às calçadas impedem a vista do mar, como observei no Leblon neste ano.

- Sou morador de Copa, justo atrás do seu prédio mais belo, o Copacabana Palace, e da porção mais ocupada por  eventos culturais e esportivos de toda a orla. Ocupam o espaço de dois, três e até quatro quarteirões a depender do evento e obrigam os moradores da área a contornar os espaços a ele destinados para alcançar a beira do mar. Sempre por um período de no mínimo  duas semanas. São vários durante o ano com  Reveillon, e no ano atual, Carnaval, garantidos. Há também o espaço em frente a Av. Princesa Isabel, local eleito para as  fun-fests e eventos esportivos. ...e por falar neles, uma nova febre tomou conta da área em frente à Santa Clara: o beach-tennis. São uma sequência de quadras, uma ao lado da outra ocupando grande extensão de areia. Alcançar a beira do mar de Copa, vai se tornando uma prova de obstáculos em extensões da praia que aumentam a cada ano.

- As praias do Flamengo, Botafogo e Glória também estão sendo invadidas. Em abril, toda a esplanada localizada entre as praias do Flamengo e Botafogo que embora não tenha areia,  era área de passagem para pedestres e corredores, além de atração turística dado a vista magnífica do Pão de Acúcar, foi ocupada por arquibancadas de um evento internacional de vela. Pelo menos por quatro semanas quem caminha ou corre foi obrigado a fazer um enorme desvio para passar de uma praia para a outra ou então desistir. Embora menos frequentes e menos importantes, estruturas para eventos/shows são montadas nas areias das praias. Em todas, multiplicaram-se as quadras de futevôlei, beach-tennis e de vôlei bem como a presença de academias de ginástica ao ar livre.

************

Fico a me perguntar?

- As atividades que se desenvolvem a partir da instalação destas  estruturas em um espaço público, pagam impostos ao Erário ou são cedidas graciosamente? No caso da segunda hipótese, nessa gratuidade não pode estar envolvida uma troca de favores ou cumprimento de promessa que beneficiam o governante em exercício?

- E quanto aos moradores destas áreas que pagam impostos maiores por serem consideradas privilegiadas e tem sua rotina alterada, seu ambiente degradado, além do público frequentador destes locais?

Nenhum comentário:

Postar um comentário