quarta-feira, 22 de outubro de 2025

- Não tem nada de ilegítimo, não tem nada de ilegal!

argumentou o vice-presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo,  em defesa do pagamento dos chamados penduricalhos - valores acrescidos ao salário-base -  para algumas funções do Judiciário, um jeitinho legal para  driblar o teto do funcionalismo público. O UOL informa, baseado em dados do portal de transparência do tribunal, que o desembargador recebeu entre setembro/24 e agosto/25, 1,5 milhão de reais líquidos de proventos, dos quais 1,3 milhão referem-se a vantagens pessoais e eventuais, gratificações e indenizações. Tudo transparente, tudo legal! 

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Talvez houvesse, sim, ingenuidade — a ingenuidade de alguém que não estava agindo fora da lei, que não estava cometendo nenhum tipo de crime. Quando não estamos fazendo nada ilegal, ou nada que possamos nos envergonhar no futuro, agimos com naturalidade…

Foi o que Erika Hilton,  declarou em entrevista à Folha em agosto,  a respeito do fato de ter contratado um maquiador e um cabelereiro para a sua equipe de acessores parlamentares. Ela é deputade federal do PSOL por SP, partido-raiz do nosso progressismo engagé, que exibe - invariavelmente com arrogância - uma suposta supremacia   moral.

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Justificativa de um desembargador e de uma deputade federal, mas costumeiramente utilizado por quem é questionado a respeito da lisura dos seus atos. O argumento da legalidade, tornou-se um álibi, um carimbo para legitimar a prática de um ato. Legal e legítimo, entretanto, são conceitos diversos de acordo com  mestre Norberto Bobbio no seu Dicionário de Política (Editora Universidade de Brasília, 1986). Até que enfim, dele fiz uso! 

Enquanto um ato legal é um ato conforme  as leis estabelecidas, um ato legítimo - no seu sentido genérico - é um ato conforme o sentido de justiça, de racionalidade. Desembargador e deputade tem razão em defender a legalidade de seus atos. Serão eles, entretanto, legítimos? Façam uma pesquisa de opinião pública a respeito e certamente a resposta será não!

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É a turma do andar de cima ou elite, como quiserem, cavando um fosso entre ela e o povão, dando ensejo a fenômenos como Bolsonaro e Trump; gerando uma crise de representatividade e uma descrença nas instituições que leva à erosão de boa parte das democracias ocidentais. 


segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Longe, bem longe desse insensato mundo (II)

 Cumpridos 74 anos de peregrinação por esta vida - haverá outras? -  ouvir canto gregoriano no matinal Áurea Música da Radio MEC FM, transporta-me para  uma capela gótica de um  monastério da Idade Média -  vem-me a mente,  aqueles ambientes recriados pelo  filme O Nome da Rosa de J.J. Annaud.  Faz-me lembrar dos anos de adolescência/juventude que perambulei  por vários conventos franciscanos lá no Sul e que me marcaram profundamente. Sei não,  mas meu estilo cada vez mais recluso de vida leva-me  a pensar que ainda não abandonei aquela vida e que continuo ainda um pouco frade.



quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Lá se foi mais um...

 e a sensação mais forte de que o fim da jornada se aproxima. 

A  temida idade do com...dor deu as caras. Foi aos 70, que os achaques - termo de velho! - começaram a se manifestar, além dos esquecimentos - especialmente de fatos próximos - terem se tornado mais frequentes. Paradoxalmente... fatos do passado remoto assomam o plano consciente amiúde. Os 70 colocaram-me na velhice. Como não há como contrariar os fados, continuarei submetendo-me estoicamente à caprichosa tessitura  das moiras. 

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- Projetos?  Não há mais. 

Deixei prá trás o mundo do petróleo e tudo a ele relacionado, apesar de ter recebido convites para lá continuar. A ele sou grato por ter me proporcionado estabilidade financeira, mas a paisagem humana que ele oferecia não permite que eu tenha saudades. 

Quero dispor do tempo só para mim. Há um Caminho de Santiago para percorrer a pé, e um Brasil do Oiapoque ao Chuí  para desbravar de carro . Preciso fazê-los o mais breve possível. Os 80 se aproximam. Depois, tudo passa a ser computado como lucro.  

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- Certezas? Nenhuma, além daquela de o fim estar próximo e de que - esta sim, suprema -...

- Existir, dói.


sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Insuspeito para falar

 

Para arrematar, é preciso arrolar a arrogância blasée que faz da democracia um lero-lero afetado e esnobe. Os “democratas” e a “esquerda” não souberam ouvir divergências, acolher descontentamentos e dialogar. Não souberam educar, porque não souberam aprender. Parecem crer que suas presunções pernósticas são o mais refinado sinônimo da verdade. Imaginando erguer a cabeça, apenas empinaram o nariz, o que abriu flancos para a demagogia bruta da extrema direita.

Eugênio Bucci - Onde é que a esquerda errou? - Estadão, 02.10.2025 

Vai ao encontro do que penso. A presunção e a arrogância  intelectual -  celebrizada na expressão basket of deplorables de Hillary Clinton referindo-se aos apoiadores de Trump -,  a superioridade moral, fruto da certeza de ter descoberto o Santo Graal, são os pecados que ornam boa parte dos integrantes da nossa esquerda. Há ainda o primado da ideologia sobre o julgamento ético - ele é o nosso canalha! - , mas aí é prá outro papo. 

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

La Cardinale.

Povoou meu imaginário, até pelo menos os 40 anos. Bela, talentosa e sensual - como lí por aí -  sem nunca ter se despido diante das câmaras. Para happy few!

Em O Leopardo, com Alain Delon formou certamente um dos mais belos casais da história do cinema...e dirigida por  Luchino Visconti! Querem mais? O filme recebeu a Palma de Ouro em Cannes em  1963. E prá terminar...  é considerado um clássico na história do cinema. Chiquerésima!

O Leopardo (1963)

La Cardinale devia habitar também o imaginário de Caetano Veloso, que antes de se tornar celebridade nacional como cantor, brincava de crítico de cinema em jornais baianos e a cantou em Alegria, Alegria, no histórico festival de 1968:

O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
em Cardinales bonitas
......
bomba e Brigitte Bardot

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Mais  uma a se ir. Estou cada vez mais só.


O bruxo/mago de Bangu

O chamavam de bruxo do sons, porque os extraia de qualquer objeto que lhe caisse às mãos. Prefiro chamá-lo de  bruxo/mago - estrábico, albino, com aquele cabelão desgrenhado! - de Bangu, um bairro perdido da Zona Oeste, no fundão do município do Rio de Janeiro.  Em sua própria casa no Jabour, funcionou (não sei se ainda está em atividade...) a Escola Jabour de música, totalmente fora dos padrões de ensino da matéria. Foi seu quartel-general  e de lá não saiu até sua morte ocorrida no dia 13 deste mês. Ficou longe do badalado circuito da Zona Sul, mesmo  considerado um músico popular de primeiríssima  grandeza urbi et orbi. No festival de Montreux de 1969 recebeu uma ovação destinada a poucos que por lá se apresentaram. Miles Davis disse de Hermeto: 

- O músico mais impressionante do mundo.

Nunca recebeu a atenção que realmente merecia por aqui. Menos mal que no Rio deram seu nome para uma  Areninha Cultural na Praça Primeiro de Maio em Bangu. Entretanto, era respeitadíssimo no exterior tendo sido agraciado com o título de Doutor honoris causa pela prestigiosa Juilliard School de Nova Iorque. 

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Apesar desse alagoano de Olho D'Água ser uma usina sonora, segue um forró arretado de ortodoxo desse músico autodidata que fez o mundo sem nunca ter abandonado  Bangu:


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Outro grande personagem do meu mundo que se vai.


domingo, 14 de setembro de 2025

Ferraris, Lamborguinis, Rolex, imóveis em condomínios de luxo...

Traduzem o brazilian way of life de traficantes/milicianos/golpistas/influencers  a julgar pelas apreensões da Polícia Federal nas suas operações contra o crime organizado, ou não, da nossa Pindorama em tempos recentes. Até réplica de carro de Fórmula 1 apreenderam!

Não sei qual o sentimento do  crème de la crème do nosso andar de cima a respeito, pois a posse de um ou mais desses brinquedinhos até bem pouco tempo balizava a diferença deles para nós simples mortais. Pois nos novos tempos, a ralé moral/existencial da nossa sociedade  também resolveu adotá-los como símbolos de status.

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Deve ser duro acordar  pela manhã e ver um séquito de carros da PF estacionados ao lado da sua casa, ou na portaria do seu prédio de apartamentos. Afinal, seu vizinho não passava de  um traficante/miliciano/influencer/golpista de renome na praça. Madames  devem ficar em polvorosa.

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Divirto-me a beça. Ranço dos velhos tempos em que acreditava  na máxima baudelariana:   épater la burgeoisie.